Entenda como a curiosidade e a imaginação se tornam os melhores brinquedos para as crianças

- julho 11, 2019

Precisamos de crianças que explorem o mundo a sua volta


“O livre brincar, simples, de pés descalços, de apetrechos como as ferramentas nas mãos, de contato com matérias não industrializadas, de encontro com as árvores, os animais, os rios, trabalha aspectos ainda mais profundos na alma de uma criança. Desperta sensos de vida integrada, eixo corporal, acuidade sensorial, acorda energias internas, simbólicas, oníricas”, Gandhy Piorski.
Casa com criança é casa com brinquedo espalhado por aí. O brinquedo – que historicamente acompanhou a criança – pode ser uma solução: a brincadeira autônoma enquanto o jantar é preparado; tanto quanto um problema: o escândalo no meio da loja por querer e não ter.
Entre ocupar o papel de agente da fruição da imaginação da criança na brincadeira e ser pivô de um momento de sofrimento e choro, o brinquedo passou pela revolução industrial, e deixou de ser um item de transmissão afetiva entre gerações – o pai marceneiro que presenteia seu filho com uma escultura de madeira – para se tornar, também, um produto a ser desejado e consumido pelo público infantil.
Somente em 2016, o mercado brasileiro contou com mais de nove mil modelos de brinquedos para crianças.
“A invenção de um mundo infantil retirou as crianças do mundo. O mundo dito infantil, na verdade é o mundo do mercado, do comércio, do conforto, da praticidade e rapidez”, disse o pesquisador da cultura da infância Gandhy Piorski.
O pesquisador  de cultura da infância ressaltou que, historicamente, as próprias crianças sempre criaram muitos brinquedos. “Brinquedos nascidos de seus próprios corpos, de suas onomatopeias, de coisas da natureza, dos artefatos dos pais”.
Se o “universo infantil” oferecido pelo mercado  retirou as crianças do mundo, será que uma criança precisa realmente de brinquedos para brincar?
 “Muitas brincadeiras são criadas pelas crianças com a força da imaginação e com recursos que a cercam, como materiais e objetos do dia a dia (panos, panelas, vassouras, travesseiros etc) e elementos da natureza”, Raquel Franzim, assessora pedagógica de Educação e Cultura da Infância do Alana.
Josca Baroukh, psicóloga e especialista em educação infantil, explica que todo objeto – inclusive um brinquedo pronto e industrializado – tem potencial brincante para a criança, isso não quer dizer que para brincar seja necessário o brinquedo.
“Mais importante são o ambiente e os materiais oferecidos à criança. Que sejam desafiantes. Que despertem a sua curiosidade. Precisamos permitir que a criança explore o mundo”, afirmou.
A exploração do mundo, e constante aprendizado e significação de seus elementos, emoções sensações e transformações dá forma a um dos grandes motores do desenvolvimento da criança. “Você empobrece a inteligência da criança quando ela não pode se experimentar”, completou a especialista.
Curiosidade e imaginação X o brincar com brinquedos prontos
O que acontece quando a experimentação no brincar dá lugar à comprimento de procedimentos colocados por brinquedos prontos?
A publicidade de brinquedos e produtos voltados ao público infantil é uma vilã contra a brincadeira livre, a criatividade e a imaginação: induzida pelo desejo de possuir um objeto, a criança se perde e a naturalidade da brincadeira acaba sendo substituída por um desejo de adquirir o brinquedo que lhe é ofertado e de realizar a brincadeira da forma como lhe é apresentada.
“A criança deixa de transformar o que está à sua volta em brinquedo para brincar com algo que lhe é dado pronto, desestimulando a criação livre, a fantasia e a imaginação”, aponta Ekaterine Karageorgiadis, coordenadora do programa Criança e Consumo, do Instituto Alana, organização que trabalha com defesa e promoção dos direitos da criança.
Em 2016, uma mãe filmou a filha ao cuidar pela primeira vez de sua boneca nova, que interagia com a criança. O vídeo viralizou. Nele, a criança se irrita com o brinquedo. “Essa boneca tá enchendo o saco. Eu queria uma boneca que dormisse. Eu tô com dor de cabeça.”
“A criança sempre encontra uma forma de interagir com o brinquedo que tem à frente, mesmo quando ele se propõe a representar fielmente à realidade como brinquedos que falam, andam e mexem. Então, não acredito que é uma questão de atrapalhar e sim de não fortalecer algo que a criança tem de precioso e transformador: o impulso da criação”, completou Raquel Franzim, assessora pedagógica de Educação e Cultura da Infância do Instituto Alana.
Como as crianças brincam?
Para os bebês de zero a três anos a brincadeira está na descoberta do próprio corpo, e o mundo através dele. “Pegar panela embaixo da pia é brincar. Colocar canudo na garrafa é brincar. As crianças amam, por exemplo, os cestos do tesouro, objetos de diferentes texturas e materiais, que elas possam explorar nesse sentido, da percepção e da motricidade. Eu penso que nessa fase não há necessidade de brinquedos”, explica Josca Baroukh, psicóloga e especialista em educação infantil.
Entre os dois e três anos, atrelado ao amadurecimento cognitivo e neurológico da criança e à possibilidade da fala, a criança passa a brincar de “faz de conta”.
“Ela passa a representar. Nesse momento, ela é capaz de colocar um objeto no lugar de outro”, afirma a psicóloga. Nessa etapa do desenvolvimento, a especialista crianças afirma que objetos em miniatura podem ser bons companheiros de brincadeira”, completou.
A brincadeira do faz de conta está atrelada ao amadurecimento cognitivo e neurológico da criança e à possibilidade da fala.
“Não é que o brinquedo seja necessário, mas muitas vezes ele também apresenta a cultura. No ‘faz de conta’, as crianças querem, por exemplo, objetos que podem ser objetos da casa ou objetos confeccionados. Não precisam ser comprados. Eles se tornam brinquedos por que entram no faz de conta”, explica Josca.
Brinquedos educativos substituem a brincadeira livre?
Vendidos em lojas especializadas, e bastante utilizados nas escolas, será que os brinquedos educativos – cuja concepção data do início do século passado, com a médica italiana Maria Montessori e a “Casa das Crianças”, espaço onde se podia aprender com materiais sensoriais, ao contrário do que pregava o ensino tradicional da época – substituem o brincar livre?
“São brinquedos que possuem uma finalidade atrelada ao desenvolvimento ou aprendizagem de habilidades cognitivas. Ou seja, são recursos educacionais. [O brincar] É uma linguagem, uma expressão da criança que pulsa sem finalidade de aprendizagem. Está aí o valor do brincar: quanto mais livre, sem a obrigação de se aprender algo e de iniciativa da criança, mais criativo e criador ele é”, explica Raquel Franzim, assessora pedagógica de Educação e Cultura da Infância do Alana.
O brincar pedagógico, ou os brinquedos educativos apresentam metas a serem cumpridas, o que não é característico da brincadeira livre.
A psicóloga e educadora Josca Baroukh alerta para a importância de se diferenciar o brincar pedagógico e a brincadeira livre no contexto da escola.
“Todo brincar é educativo em si. O brincar é uma atividade livre e espontânea, que vai permitir que a criança desenvolva a sua imaginação”, explica. “O que as pessoas chamam de brincar pedagógico na escola, pra mim não é brincar. Uma atividade dirigida que usa a brincadeira. Precisa se ter claro a diferença entre essas coisas”.
O brincar e a experiência criativa da criança
Dentro da complexa tarefa que é cuidar de uma criança e instrumentalizá-la para viver estar plena no mundo, o brincar muitas vezes se torna uma fonte de insegurança para os pais – meu filho não sabe brincar – , ou então uma fonte de culpa – o que fazer quando se chega cansado de um dia de trabalho e a criança pede para brincar junto? Apesar disso, é preciso entender o valor e a importância dessa atividade para o desenvolvimento da criança e encontrar espaço no dia a dia para que ele aconteça.
“Brinquedos prontos, geralmente os industrializados, representam a descrença dos adultos, fortemente apoiada pela indústria de brinquedos, de que crianças não são capazes de imaginar, de criar, de reinventar por conta própria. Precisamos aprender a olhar para a experiência criativa da criança. Só assim pais e educadores irão entender que materiais mais abertos possibilitam às crianças a invenção de seus próprios brinquedos ou ainda a reconstrução de novos. Quer força criativa maior do que essa?”, coloca Raquel Franzim, do Alana.
Tempo, espaço, tédio, ócio são convites à imaginação que despertam a força criadora da criança. “A palavra criança é do verbo latim creare (criar), que também provém da raiz credere (crer). Esses duas palavras são altamente dinâmicas, são forças, ações, verbos de natureza intuitiva. O criador, o artista, assim como o místico, aquele que crer, são dois estudiosos do conhecimento intuitivo, aquilo que não é mental, raciocinado, mas aflora da alma. Pela faculdade imaginadora a criança tem intimidade com esse saber e o explora em silêncio nas suas fabulações e pesquisas”, finaliza o pesquisador da cultura da infância Gandhy Piorski.

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