Profissionais de saúde registram 855 denúncias em SP por falta de EPIs.

- 8:56 PM




"Trabalho em UTI. A máscara N95 é para usar uma única vez. Aqui no hospital municipal e maternidade da Vila Nova Cachoeirinha, estamos usando por 5 dias. É gente levando na bolsa, ônibus, deixando no armário. Usamos uma máscara em cima da outra. Avental é descartável, mas estamos reutilizando. Parece um varal de aventais contaminados", revelou ao R7 o profissional de saúde que trabalha na zona norte da capital paulista e prefere não ser identificado.





A pandemia do coronavírus expôs um grave problema na rede de saúde: a falta de materiais conhecidos como EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), compostos por máscaras, luvas, gorros, óculos de proteção e capote impermeável, sem falar em álcool gel. Sem eles, o profissional corre risco de ser infectado e também de transmitir o vírus aos demais pacientes e familiares.


"Os materiais nunca foram fartos, mas não havia carência. EPIs não chegam, mas casos suspeitos de covid-19 estão chegando. Se fôssemos seguir os padrões e recomendações, esgotaria estoque em uma semana. Nas unidades, negam falta de equipamentos, mas há restrição na entrega. Isso não é gestão adequada do uso porque aumenta o risco de contaminação", disse o funcionário.

De acordo com a AMB (Associação Médica Brasileira) foram registradas 2.513 denúncias de falta de EPIs em todo o país até o dia 29. O estado de São Paulo, que tem o maior número de óbitos e casos confirmados da covid-19, reúne 855 reclamações em 10 dias. 

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A denúncia pode ser feita pelo site pelo profissional de saúde e é anônima. Em São Paulo, 122 municípios foram denunciados, sendo que a capital paulista tem 250 denúncias, seguida por Caçapava, com 59, e Santos, 31. Em alguns casos, faltam até os sete tipos de EPIs nos postos de trabalho. Veja lista de materiais indisponíveis:


Listagem de EPIs em falta nas unidades de saúde, segundo denúncias à AMB
Divulgação / AMB
Em uma ação civil pública movida pelo Ministério Público de São Paulo, a promotora de justiça de Direitos Humanos, Dora Martin Strilicherk, escreveu: "tal situação revela extrema gravidade, na medida em que a contaminação dos profissionais de saúde, além de ampliar a circulação do vírus, certamente implicará em dificuldades ainda maiores para o enfrentamento da pandemia, posto que muitos profissionais terão que ser afastados de suas funções, antecipando o colapso do sistema de saúde".

O inquérito civil foi instaurado. A promotora pediu explicações para as Secretarias Municipal e Estadual de Saúde sobre as medidas adotadas para garantir a compra de insumos e distribuição adequada de EPIs.



"A gente se sente vulnerável porque existe risco de um surto intra-hospitalar com aumento do contágio, mas não podemos negar atendimento médico. Todos estão estressados, com medo de contaminação, a gente pensa nos filhos, mas não temos a quem pedir ajuda", desabafou o profissional.

Decisão da Justiça

O Sindicato dos Enfermeiros do Estado de São Paulo conseguiu uma liminar pelo Tribunal Regional do Trabalho que determina aos hospitais o fornecimento imediato de equipamentos de proteção individual aos funcionários assim como materiais de higiene. Segundo a decisão, eles devem ser entregues em "quantidade suficiente e necessária, conforme indicado na nota técnica da Anvisa".

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A desembargadora Sonia Maria de Oliveira Prince Rodrigues Franzini também ordenou o afastamento imediato das funções de enfermeiros idosos, gestantes, lactantes, portadores de doenças cardíacas e pulmonares, diabéticos e hipertensos, os chamados grupo de risco. Eles devem permanecer em quarentena, mas, na medida do possível, podem prestar serviços à distância.

Em caso de descumprimento, a multa diária é de R$ 5 mil, sendo que é cumulativa.


Estagiários em risco
Reprodução / Arquivo Pessoal




A professora Carolina Lemos Roland fez tudo o que foi possível para proibir que a filha Thaís, de 26 anos, que está no último semestre de fisioterapia na Univove, completasse o estágio. A estudante atuou na UBS Vila Anglo Doutor José Serra Ribeiro, em Perdizes, mas iria para o Hospital do Mandaqui, na zona norte. Outros iriam para o Hospital do Servidor Municipal.


"Não tinha EPI para nenhum deles, nem máscara N95. Os enfermeiros da UBS deram máscara cirúrgica para a minha filha. São os fisioterapeutas que cuidam do respirador. Eu proibí ela de ir pro Mandaqui. Ela só tinha o jaleco comprado da faculdade. Que é isso? Sai para salvar o mundo e pode voltar num caixão", disse a mãe da universitária.

Os estudantes se uniram e fizeram abaixo-assinado, reclamações contra a faculdade, procuraram o vereador Celso Giannazi (PSOL) e o Ministério Público pela suspensão dos estágios, já que não havia proteção necessária aos alunos da saúde.

A pressão foi tanta que a faculdade decidiu suspender os estágios na última quinta-feira (26).



Denúncias

"Não podemos mais usar o celular dentro do hospital até para evitar que fotografemos os ambientes, tudo para dificultar a denúncia porque não temos provas", contou o funcionário do hospital.

Além do site da AMB, os médicos que atuam em unidades de saúde e dão assistência a casos confirmados e suspeitos de covid-19 podem informar falhas na infraestrutura de trabalho das redes pública e privada aos Conselhos de Medicina de todo o país por meio de uma plataforma online.

O outro lado

A Secretaria Municipal da Saúde informou, em nota, que, "mesmo diante da escassez mundial de produtos de proteção, conforme já alertado pela Organização Mundial da Saúde, a pasta comprou 5 milhões de máscaras cirúrgicas e 1 milhão de máscaras N-95".

A prefeitura destacou ainda que a rede de saúde segue os protocolos definidos pelo Ministério da Saúde sobre utilização de EPI: a máscara cirúrgica para o atendimento ao usuário com sintoma respiratório e a máscara N95/PFF2 somente nos procedimentos que podem gerar aerossóis (como coleta de swab nasal, nebulização, broncoscopia, aspiração de paciente entubado, entre outros).




Já a Secretaria Estadual de Saúde disse que dá orientações aos profissionais e garante que qualquer colaborador com suspeita de covid-19 será afastado para "proteção da sua saúde e das demais pessoas que frequentam a unidade".

Em nota, o governo negou que haja "desabastecimento de EPIs nos serviços estaduais de saúde" e informou que a Secretaria já adquiriu mais de 42,2 milhões de unidades de EPIs e outros materiais.

Via:R7
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