Quem é Mandetta, ministro da Saúde que incomoda o Planalto.

- 4:23 PM


Titular da pasta vem ganhando os holofotes dia a dia e tem despertado ciúmes no Palácio do Planalto.

Médico ortopedista, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, de 55 anos, vivia corrigindo a postura de seus colegas na Câmara, quando era deputado. A postura, no caso, era a da coluna vertebral mesmo. Foi em uma dessas ocasiões, no Congresso, que ele se aproximou do capitão reformado do Exército Jair Bolsonaro, à época também deputado.

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Quem é Mandetta, ministro da Saúde que incomoda o Planalto

Bolsonaro e Mandetta, que já trabalhou até como médico militar tenente no Hospital Geral do

Exército, se uniram na oposição ao governo Dilma Rousseff (PT). O ministro foi contra, por exemplo, o programa Mais Médicos e sempre defendeu a revalidação de diplomas para profissionais estrangeiros.

Com a crise do coronavírus, o ministro filiado ao DEM vem ganhando os holofotes dia a dia e tem despertado ciúmes no Palácio do Planalto. Pesquisas e monitoramentos de redes sociais indicam que Bolsonaro perdeu popularidade após o avanço da doença, enquanto Mandetta ganhou prestígio.

Neste domingo, o titular da Saúde provocou polêmica ao sugerir o adiamento das eleições municipais de outubro. No Congresso, a proposta dividiu deputados e senadores, mas o fato é que Mandetta tocou em um tema importante, já tratado nos bastidores pelas cúpulas dos partidos.

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Ao contrário dos tempos de Congresso, quando tinham afinidade na oposição ao PT, Bolsonaro e Mandetta, agora, parecem bater cabeça. Na sexta-feira, por exemplo, enquanto o presidente falava em "gripezinha", o ministro previa um "colapso" no sistema de saúde no final de abril

Bolsonaro tem se queixado de que, muitas vezes, o discurso de Mandetta provoca pânico na população e cobra a mudança de tom. Preocupado com o reflexo da crise no emprego e, como consequência, na sua popularidade, o presidente quer que Mandetta e os outros auxiliares façam pronunciamentos mais otimistas, dizendo que o Brasil tem uma economia sólida.

Na prática, até a eclosão da pandemia, o ministro da Saúde estava escanteado na equipe e sempre saía pela tangente quando era abordado sobre assuntos polêmicos. Além disso, fugia de comentários sobre pautas de costumes. Trata-se de uma estratégia que não garante pontos com Bolsonaro, já que o presidente prefere perfis que compram brigas e partem para o enfrentamento político.

No fim do ano passado, Mandetta chegou a dizer a colegas da Câmara que trocaria o governo pela candidatura a prefeito de Campo Grande (MS). Para aliados, a conversa foi interpretada como uma forma honrosa de sair, evitando o desgaste de uma demissão. Recentemente, porém, ele disse a aliados que desistiu de disputar a Prefeitura de Campo Grande. Há quem diga que ele já esteja planejando voos mais altos, para o governo de Mato Grosso do Sul, em 2022.

No Ministério da Saúde, Mandetta mudou de perfil, baixou o tom de críticas ao Mais Médicos - programa ainda ativo na sua gestão -- e ganhou status de voz ponderada no governo.

Carreira

Mandetta começou a carreira política no MDB, em 2005. Naquele ano, ele assumiu a Secretaria Municipal de Saúde de Campo Grande (MS), cidade onde nasceu. Em 2010, deixou o cargo, trocou o MDB pelo DEM e concorreu a deputado federal. Foi reeleito em 2014, mas não disputou novo mandato quatro anos depois.

Mandetta integra o triunvirato de ministros do DEM no governo. Tereza Cristina (Agricultura) e Onyx Lorenzoni (Cidadania) também são filiados ao partido. Para chegar à Esplanada, ele contou com forte apoio dos dois - à época, Onyx havia sido indicado para a Casa Civil --, e do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM). Mas, para que a escolha não ficasse partidarizada, carregou o aval de frentes parlamentares da saúde, que reúnem integrantes de várias legendas.

Investigação

Mesmo com perfil discreto, Mandetta é conhecido por amigos por não esconder "a real" situação dos fatos. Quando foi convidado para ingressar no ministério, ele avisou Bolsonaro de que era investigado por suposta fraude em licitação, tráfico de influência e caixa dois. O presidente não fez qualquer reparo e observou, à época, que o médico "sequer" era réu.

A suspeita é de que Mandetta tenha influenciado na contratação de uma empresa em 2009, quando era secretário da Saúde de Campo Grande, para gestão de informações na área. Em troca, ele receberia favores em campanha eleitoral. O Ministério da Saúde repassou R$ 8,16 milhões ao contrato. E a prefeitura, R$ 1,81 milhão.

Segundo uma ação de 2015, movida pela Procuradoria de Campo Grande, o serviço não foi entregue. O mesmo documento afirma que o município teve de devolver à União R$ 14,8 milhões. Mandetta sempre contestou a acusação.

Na véspera da votação da reforma da Previdência na Câmara, quando a Saúde liberou mais de R$ 1 bilhão em emendas, em meados do ano passado, Mandetta admitiu que a pasta fazia um "esforço" para aprovar a matéria. A versão era oposta à de Bolsonaro, que negava relação do pagamento com a votação. O Ministério Público Federal abriu investigação sobre possível interferência de Bolsonaro, de Mandetta e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), na votação da reforma por causa de liberações de emendas. Procurado, o Ministério da Saúde disse que não vai se posicionar sobre "inquéritos não concluídos".

Sem 'despetização'

Para integrantes do governo e autoridades que acompanham a gestão do SUS, Mandetta não é um excepcional formulador de políticas públicas, mas cumpre bem a função de ministro. Há na equipe desconfianças sobre a afinidade dele com o setor de planos de saúde. Tudo porque Mandetta presidiu a Unimed em Campo Grande e já disse que pautaria mudanças em regra sobre acesso à rede pública.

De qualquer forma, um mérito do titular da Saúde, de acordo com interlocutores do ministério ouvidos pelo Estado, foi blindar a pasta da "despetização" -- demissões feitas no começo da gestão Bolsonaro de funcionários que tivessem qualquer indício de ligação com governos do PT.

A área de vigilância em saúde, por exemplo, foi preservada. Trata-se de um setor muito demandado pelo novo coronavírus e no qual há servidores que já enfrentaram crises por doenças mais letais, como H1N1 e zika vírus.
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