Mãe moradora de rua transformou a calçada em um LAR para as filhas.

- 11:16 AM





Ana Paula Rodrigues Gama, 46 anos, há aproximadamente três anos, mora nas ruas com suas duas filhas, Tainá de seis anos e Gabriela de oito. Mesmo vivendo com dificuldades extremas, ela conseguiu encontrar força e coragem para tocar a vida de forma digna. Muito asseada, ela se dedicou e fez da calçada um lar limpo e organizado para suas filhas.




Sua história de vida foi contada em uma reportagem muito emocionante feita pela jornalista Luã Marinatto, pelo jornal O Globo

Ana Paula e suas filhas estão morando atualmente na Avenida Graça Aranha, paralelo à Cinelândia, região central do Rio de Janeiro. Fixaram residência ali desde o começo deste ano. Vivem em um espaço de 4 metros quadrados, a casa é na verdade uma espécie de barraca, coberta com uma grande lona plástica, que se transformou no teto delas. A cama é feita de vários restos de papelão e conta com três edredons que foram ganhados e, alguns cobertores. “É para que minhas meninas fiquem bem quentinhas”, disse. Ela varre o chão da calçada várias vezes ao dia, e o entorno também, recolhendo todo o lixo e depositando em uma lixeira da Comlurb.





“Se não faço isso, vem o vento e joga tudo dentro de casa. Gosto de tudo muito limpinho para elas”.


A entrevistada disse ter uma residência, que fica na comunidade do Pavão-Pavãozinho, Copacabana, Zona sul. Contudo, a casa tem muitas dificuldades as quais ela vem tentando arrumar aos poucos, com a pandemia ficou mais difícil de organizar a casa devido à falta de recursos. Para se ter uma ideia da precariedade da casa, faltam encanamentos, chuveiros, embolsamento. Uma mureta de proteção ainda não foi terminada, para que a agua do valão ao lado – assim como os ratos – não invada nos dias de chuva. O mais agravante de tudo é que a casa não tem janelas e nem portas.





“Se dá um tiroteio, eu não tenho nem como proteger as minhas filhas. Não posso ficar lá desse jeito”, disse.


O dia da família começa um pouco antes das 7h da manhã, o mesmo horário em que as crianças iam para as aulas na escola municipal na Lagoa, e tiveram que parar as aulas devido a pandemia. “Para que elas não percam o hábito”, se Ana Paula. Mesmo com a pausa do ensino presencial ela costuma ir periodicamente na escola para retirar o material didático das filhas. No dia da reportagem, a mãe estava com as filhas ajudando elas com as matérias.

“Com as coisas até o sétimo ano eu ainda vou poder ajudar um pouco”, disse Ana Paulo, dando a entender que ela interrompeu seus estudos no sétimo ano.


Ana Paulo revelou que suas filhas tomam dois banhos durante o dia, religiosamente. Um logo cedo pela manhã, ali na garagem de um prédio bem próximo, assim, ela enche um balde de água, que além de limpar as meninas, também serve para elas escovarem os dentes. O segundo banho, é à tarde, em um abrigo da prefeitura no Centro, e é ali que as três também almoçam. Nos finais de semana, elas costumam ir à praia ou ao Aterro do Flamengo “rolar na grama”. Outro local que elas gostam de frequentar é a Estação da Praça XV para ver as barcas.





“Elas acham que tudo é uma brincadeira, até mesmo isso de dormir na rua, na barraca. É melhor assim”, disse a mãe.

Certa vez, quando ela e as meninas voltaram para a “casa” depois de almoçarem, ficaram surpresa pois os agentes da prefeitura retiraram todos os “poucos” pertences que a família tinha. Como ela é muito conhecida naquela região, elas logo conseguiram tudo de volta com as doações feitas pelas pessoas, só não conseguiu repor o uniforme escolar das meninas. Esperta com a perda, agora, sempre que sai, Ana Paulo conta com a ajuda do porteiro de um prédio próximo que guarda seus itens importantes em uma pequena caixinha.


Ana Paula teve que cuidar de sua mãe até que ela faleceu com câncer, isso há dez anos. Já administrou uma birosca na comunidade, más perdeu essa função devido a um companheiro a ter traído. Ela tem alguns irmãos que moram na comunidade, mas eles “precisam sustentar as próprias famílias”. Ela tem outros três filhos maiores de idade que, conforme ela diz, “já estão encaminhados”.

Suas duas filhas Tainá e Gabriela são de pais diferentes, um é entregador de gelo e outro um vigia de banco. Um deles ajuda com R$ 50 quando pode. O outro, não ajuda em nada, e nunca aparece. Na batalha para alimentar as filhas, ela já foi babá, trabalhou em lanchonetes, salão de beleza e restaurante. Com as dificuldades da pandemia, ela ainda não conseguiu trabalho.

“Acabei perdendo quase todos os dentes, então fica complicado quererem me contratar”.
Cada dia é uma luta pela sobrevivência, onde ela tenta se virar como pode. Às vezes vende água e paçocas, e os poucos trocados que consegue tente também ajudar na obra de sua casa, recentemente ela ganhou 300 tijolos fornecidos por uma igreja.


“Eu só quero isso: material de construção. A gente vive bem, mas a rua não é um lugar legar para crianças. Eu sei disso”.





Ana Paula e as filhas varrem a calçada em que vivem, no Centro do Rio Foto: Domingos Peixoto / Agência O Globo
Com informações: O Globo
Foto: Domingos Peixoto/Agência o Globo

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